Logo Dr. Marcos Araújo
InícioConteúdosA importância da visualização em concursos de performance musical (e não só...)
Prática Mental & Visualização5 min de leitura

A importância da visualização em concursos de performance musical (e não só...)

Como a imagética motora e a prática mental aceleram a técnica e eliminam o estresse antes de recitais e bancas

MA
Prof. Dr. Marcos Vinícius Araújo
30 de agosto de 2026•Acesso Livre

Abaixo alguns trechos de entrevistas com músicos se preparando para performances retirados de pesquisas que desenvolvo sobre experiências de fluxo na prática musical:

"Por mais que eu estude, pareço não estar pronto para a situação competitiva que se aproxima, na qual terei que executar um programa que me é desafiador.. gostaria de poder executá-lo como no meu quarto de estudos, com confiança e, de preferência, sem erros"

"Me sinto cansado demais para estudar.. quero praticar mais tempo, mas não me sinto muito bem.. e outra coisa.. entre tantos afazeres às vezes só tenho 15 minutos, então, penso que não vale à pena sentar com o violão, aquecer, e iniciar no repertório"

A boa notícia é que sim, existe uma solução. Você ainda pode praticar e melhorar mesmo estando longe do seu instrumento, e esse processo é chamado de visualização, que se encontra dentro do campo científico da imagética.

O conceito é simples: a imagética motora envolve se imaginar tocando como se estivesse realmente com seu instrumento (veja o estudo na Annals of the New York Academy of Sciences). Em um estudo, participantes que praticaram mentalmente uma sequência de cinco notas em um piano imaginário por duas horas por dia tiveram alterações neurológicas similares (e redução de erros) aos participantes que praticaram fisicamente a mesma passagem em um piano real.

Alguns sugeriram que esse tipo de visualização ativa as mesmas regiões cerebrais da prática física e tem o mesmo efeito que a prática física real. Em outras palavras, existem evidências crescentes de que a visualização, se feita corretamente, pode definitivamente fazer a diferença.


Alguns Benefícios da Visualização

A visualização tem um grande potencial para aumentar sua coordenação motora no instrumento e também a velocidade. A visualização também pode acelerar bastante a velocidade com que você memoriza uma peça.

O fator importante aqui é capacidade de resgate junto com a prática mental:

  • Se você visualizar a reprodução de uma peça inteira várias vezes, poderá se lembrar mais facilmente dela durante a performance.
  • No início, você provavelmente precisará olhar a música de vez em quando. Mas, eventualmente, você deve conseguir passar pela peça várias vezes sem olhar para a partitura. Daí a recomendação de vários professores de estudar a peça enquanto se faz uma corrida :)

A visualização também pode ser muito útil para amenizar/eliminar tensões (físicas e emocionais!). Durante a visualização, você pode vivenciar tensões relacionadas à tarefa. Essas mesmas tensões ou reações emocionais também podem ocorrer quando você realmente pega o instrumento e começa a praticar. No entanto, se você puder empregar técnicas de relaxamento enquanto pratica mentalmente, esses obstáculos serão muito mais fáceis de serem eliminados quando tocar fisicamente seu instrumento (ou cantar).


Como Visualizar: Guia Passo a Passo

Agora que você conhece alguns dos benefícios da visualização, aqui está um passo a passo de como alcançar uma excelente prática mental:

  1. Escolha a hora e o local certos para visualizar:
    Visualizar é um pouco como meditar, porque requer um bom grau de concentração silenciosa. Tente encontrar um tempo durante o dia em que você possa "desligar" por dez minutos, sem medo de ser perturbado.

  2. Acalme-se:
    Feche os olhos e concentre-se apenas na respiração por um minuto. Inspire devagar e completamente pelo nariz e depois expire lentamente pela boca. Em seguida, faça uma varredura total do corpo em busca de tensão, relaxando lentamente todas as partes do corpo. Deixe qualquer tensão que encontrar desaparecer.

  3. Expanda seu foco:
    Agora, concentre-se em um objeto. Pode ser qualquer coisa — seu instrumento, o metrônomo ou a estante em seu quarto de estudos. Tente imaginar isso. Nesse ponto normalmente ocorrem distrações. É normal, o objetivo aqui é imaginar algo pequeno e torná-lo mais vívido, palpável. Depois disso, você pode começar a expandir essa vivacidade para o resto do seu ambiente imaginado. Você vai melhorar com a prática.

  4. Use todos os seus sentidos:
    As imagens mentais costumam ser rotuladas como visualização, mas não se limitam apenas ao visual. Quando imaginar, imagine o que está vendo, ouvindo, cheirando, e também as sensações corporais (tato, peso e movimento dos dedos). Isso é fundamental na preparação de performances.


Aplicando Distintos Tipos de Imagética Mental na Aprendizagem Musical

Nas minhas aulas busco aplicar exercícios diversos de visualização, dependendo do contexto. Isso é muito importante. Se você quiser experimentar algum tipo de exercício de visualização em sua preparação de performance musical, explore os programas de mentoria do Flow Musical.


A Experiência Pessoal Mais Marcante com Visualização

Em 2017 tive que fazer um grande trabalho de preparação para o concurso para professor efetivo de violão na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Sem dúvida, a experiência mais desgastante envolvendo performance musical que já tive na vida! Uma semana inteira de provas (escrita, didática, prática, currículo, pesquisa, etc.).

E um grande desafio foi que tive que preparar uma peça emblemática do repertório totalmente "do zero": as 3 Piezas Españolas de Joaquín Rodrigo. Pouco tempo para preparo, pois na época era professor de 5 disciplinas em outra instituição de ensino superior.

Chegou um ponto do meu estudo que percebi que estagnei, não conseguia mais avançar. Em uma bela manhã de domingo, simplesmente senti, fui impelido a dedicar meu tempo inteiramente à prática mental. Coisas da intuição. Algo em mim dizia: "A prática do violão não vai resultar em nada de novo neste momento. A prática mental será decisiva nesse ponto da sua preparação."

Na semana do concurso, sentava na minha cadeira e estudava a partitura, observando harmonias, elementos estruturais, relações intervalares, formas melódicas, fórmulas sequenciais, ritmos... Então fechava meus olhos e pensava em cada um desses elementos, imaginando-os, ao meu ritmo.

Eu me visualizava tocando cada passagem, movendo meus dedos através dos dedilhados, estando mentalmente consciente de cada movimento, sensação, e resultante sonora. Alguns momentos dedicava às sensações físicas, em outros, imaginava a resultante sonora... ficava alternando entre um e outro. Também ensaiava mentalmente todas as mudanças de timbre, o movimento físico necessário para cada um e como seria meu movimento corporal para tocar a peça.

No dia da prova de performance, o programa era extenso:

  • Suíte BWV 995 de J. S. Bach (Prelúdio, Sarabanda e Giga)
  • Rondó Brilhante de Dionisio Aguado
  • 3 Piezas Españolas de Joaquín Rodrigo
  • Nocturnal de Benjamin Britten
  • Arranjo de All of Me de Roland Dyens
  • Blackbird dos Beatles

O resultado final foi que, mesmo tocando esta peça de memória pela primeira vez na frente de uma banca de especialistas na área (3 doutores em violão!), a performance foi superior a qualquer outra que eu tinha feito anteriormente. Minha pontuação final na prova de performance foi a mais alta da banca, garantindo o primeiro lugar no concurso.

Para outros conteúdos relevantes sobre concursos e performance: Vídeo no YouTube | Perfil no ResearchGate

Tópicos:#Visualização#Prática Mental#Concursos#Neurociência#Performance Musical#UFRGS
Prof. Dr. Marcos Araújo
Sobre o Autor

Prof. Dr. Marcos Araújo

Doutor em Música com pesquisa focada em neurociência da performance, estado de flow e preparação somática para audições e recitais de alta complexidade.